Pinças de churrasco fizeram parte da coleta. Entre 2023 e 2025, pesquisadores retiraram amostras de um riacho quente no Parque Nacional Vulcânico de Lassen, na Califórnia. Dali saiu uma ameba capaz de fazer algo que parecia além do limite para células como as dela.
Em laboratório, a Incendiamoeba cascadensis continuou se dividindo a 63 °C. Até então, o limite conhecido de reprodução dos eucariotos — seres cujas células têm núcleo — era de cerca de 60 °C.
A descoberta foi publicada na revista científica Cell em 22 de setembro de 2026, depois de uma versão preliminar divulgada em novembro de 2025. Não é um recorde para toda forma de vida: bactérias e arqueias já eram conhecidas por resistir a temperaturas mais altas.
O riacho, a coleta e o teste de calor
Diagrama: Olhar Digital. Fonte: estudo divulgado por NASA e Syracuse University.
A equipe liderada por Angela Oliverio, da Universidade de Syracuse, com Beryl Rappaport como primeira autora, não encontrou a ameba em uma das famosas poças ácidas do parque. Ela veio de um afluente discreto do Hot Springs Creek, segundo a universidade; conforme o artigo, a água do trecho estava entre 49 °C e 65 °C, e a espécie pertence a um gênero novo. O nome dado à espécie faz referência ao fogo e à região das Cascatas.
Nas culturas de laboratório, as amebas continuaram crescendo enquanto a temperatura subia de 57 °C para 60 °C e seguiram se dividindo a 63 °C. A 64 °C ainda se moviam. Na forma de cistos, estruturas dormentes, sobreviveram à exposição de cinco minutos a 70 °C. A 80 °C, morreram.
Uma célula complexa, não um animal grande
A pesquisa, financiada em parte pela NASA, foi divulgada pela agência como um recorde de temperatura para a “vida complexa”. O termo confunde: aqui, complexa é a célula, não o organismo. Eucariotos são seres cujas células têm núcleo e organelas envoltas por membranas, de amebas a baleias. Bactérias e arqueias, sem núcleo, ficam de fora dessa categoria.
É por isso que o recorde tem recorte. A ameba de fogo não é o ser vivo mais resistente ao calor que existe. Há bactérias que crescem a até 100 °C, e a arqueia Methanopyrus kandleri chega a 122 °C. O que a ameba mostra é que as células complexas suportam mais do que se acreditava. Segundo a nota da NASA, a descoberta derruba a suposição de que membranas de organelas não ficariam estáveis acima de 62 °C.
A análise genética aponta genes ligados à estabilidade do DNA e das proteínas, além de proteínas com carga superficial positiva, parecidas com as de bactérias que vivem no calor. Material genético semelhante foi identificado em dados da Nova Zelândia e do Parque de Yellowstone, indício de que parentes podem existir em outras fontes termais.
A próxima amostra pode mudar o limite outra vez
À rádio pública americana NPR, Oliverio comparou o feito à primeira milha corrida em menos de quatro minutos: depois que alguém rompe a barreira, outros vêm atrás. Ela mesma admite que o limite pode ser superado em breve.
Debashish Bhattacharya, da Universidade Rutgers, que não participou do estudo, observou à NPR um detalhe inesperado: o genoma da ameba é maior que o de seus parentes, ao contrário do encolhimento genético comum em outros organismos de ambientes extremos. A dúvida é se a descoberta renderá aplicações ou ficará como curiosidade exótica.
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