Os fones de ouvido com cancelamento de ruído ajudam a reduzir os sons externos e tornam músicas, podcasts e chamadas mais fáceis de ouvir em ambientes barulhentos. Mas será que esse tipo de fone também oferece riscos à audição ? Vamos ver o que os especialistas da área dizem. Segundo o médico otorrinolaringologista Alexandre Camilotti Gasperin, professor de Otorrinolaringologia da Escola de Medicina e Ciências da Vida da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), o cancelamento de ruído pode até contribuir para proteger a audição , pois permite ouvir conteúdos em volumes mais baixos. O principal fator de risco é a intensidade do som que chega aos ouvidos, especialmente quando a exposição se prolonga e acontece com frequência. Entender como o ANC funciona, quais são seus limites e como controlar o volume ajuda a aproveitar a tecnologia sem descuidar da saúde auditiva. Como funciona o cancelamento ativo de ruído? O cancelamento ativo de ruído é uma tecnologia que reduz a percepção dos sons externos por meio de um processo eletrônico. Microfones instalados nos fones captam os ruídos do ambiente, enquanto o sistema produz ondas sonoras capazes de atenuar parte desses sons. O princípio envolve a chamada interferência destrutiva: uma onda sonora é produzida em oposição à onda do ruído captado, reduzindo a intensidade percebida pelo ouvinte. O resultado depende de fatores como a frequência do som, o posicionamento do fone e a qualidade do sistema. O ANC costuma funcionar especialmente bem contra ruídos contínuos e de baixa frequência, como o barulho de motores, ventiladores e sistemas de climatização. Sons repentinos, vozes e ruídos de padrões mais complexos podem ser mais difíceis de eliminar completamente. Também é importante diferenciar o cancelamento ativo do isolamento passivo. O segundo depende da barreira física formada pelas almofadas ou pelas ponteiras de silicone, que bloqueiam parte do som externo. Muitos fones combinam os dois recursos para reduzir ainda mais o ruído percebido. O Canaltech inclusive acabou de testar o Redmi Neo, novo headphone da marca que traz ANC, e nosso analista explicar melhor qual é a diferença que o cancelamento de ruído faz. O apresentador do Canaltech, Gabriel Rimi, apresentou ao vivo na CNN Brasil o conceito de fone com cancelamento de ruído. Fone com ANC pode causar perda auditiva? O cancelamento ativo de ruído, por si só, não é considerado o principal responsável por danos auditivos . O risco está relacionado principalmente à intensidade sonora, ao tempo de exposição e à frequência com que a pessoa escuta sons altos. Segundo Gasperin, os fones com ANC podem até ajudar a proteger a audição. Isso acontece porque, em ambientes barulhentos, algumas pessoas aumentam o volume para conseguir ouvir músicas e outros conteúdos com clareza. Ao reduzir a interferência dos sons externos, o ANC diminui a necessidade de competir com o ruído ao redor . O benefício, porém, depende do comportamento de quem usa o equipamento. Se a pessoa aproveitar o cancelamento para escutar músicas em volumes muito altos durante longos períodos, continuará exposta ao risco de lesões auditivas. Portanto, ter ANC não significa que um fone seja automaticamente seguro em qualquer situação. A tecnologia pode favorecer hábitos mais saudáveis, mas não substitui o controle do volume nem os intervalos de descanso. O cancelamento de ruído pode dar uma falsa sensação de segurança? Como o ANC reduz a percepção do barulho externo, o usuário pode sentir que está em um ambiente silencioso e confortável, mesmo quando o conteúdo reproduzido nos fones está em volume elevado. Essa sensação pode dificultar a percepção de que a exposição sonora está excessiva. O conforto proporcionado pelo cancelamento não indica, necessariamente, que o nível de som recebido pelo sistema auditivo seja seguro. Outro ponto importante é que o ANC não elimina todos os ruídos . A eficiência varia de acordo com o ambiente e com o tipo de som. Por isso, não é recomendável aumentar o volume indiscriminadamente quando algum barulho externo continua perceptível. O ideal é ajustar o volume antes de começar a ouvir e mantê-lo em um nível confortável. Se for necessário aumentá-lo constantemente para entender o conteúdo, vale verificar o encaixe dos fones, as configurações de áudio e as condições do ambiente. Em locais muito barulhentos, o cancelamento pode ser especialmente útil justamente por diminuir a necessidade de elevar o som. O recurso, porém, não deve ser confundido com uma proteção auditiva profissional para ambientes com níveis perigosos de ruído. Qual é o volume seguro para usar fones de ouvido? A intensidade sonora é um dos fatores mais importantes para avaliar o risco de danos à audição. Gasperin explica que sons acima de 85 decibéis (dB) podem causar lesões auditivas, especialmente quando a exposição é prolongada ou frequente. Só que o risco depende também do tempo de exposição. Quanto maior o nível sonoro, menor tende a ser o período necessário para que ocorram danos. Por isso, 85 dB não deve ser interpretado como um limite universal abaixo do qual qualquer exposição é segura. O especialista recomenda manter o volume dos fones entre 30% e 50% da capacidade do equipamento . Essa faixa funciona como uma orientação prática, mas não garante um nível específico de decibéis, já que a intensidade real varia conforme o modelo, a gravação reproduzida e as configurações do aparelho. Sempre que possível, vale ativar os recursos de monitoramento de exposição sonora disponíveis no celular ou no próprio fone. Alguns dispositivos permitem consultar os níveis de áudio e receber alertas quando o som permanece alto por muito tempo. Também é recomendável evitar aumentar o volume para compensar o barulho externo. Nesse cenário, o ANC pode ajudar a manter a reprodução em um nível mais baixo e confortável. Quanto tempo por dia é seguro usar fones com ANC? O tempo de exposição também influencia a saúde auditiva. Mesmo em volumes aparentemente confortáveis, ouvir sons altos por períodos prolongados pode aumentar o risco de lesões, especialmente quando o hábito se repete diariamente. Gasperin cita recomendações conhecidas como 30-30 e 40-20. A primeira sugere 30 minutos de uso seguidos de 30 minutos de descanso. A segunda propõe 40 minutos de uso e 20 minutos de pausa. O médico ressalta que ainda é necessário estabelecer orientações mais bem ajustadas para esse tipo de exposição. Por isso, esses intervalos devem ser entendidos como referências de cautela, e não como regras universais que garantem a ausência de danos. O especialista também alerta para o uso prolongado: O risco, porém, não depende exclusivamente de ultrapassar uma quantidade específica de minutos. O volume e a duração precisam ser avaliados em conjunto. Uma exposição mais curta a sons muito intensos também pode ser prejudicial. Fazer pausas, reduzir o volume e evitar longas sessões contínuas são medidas importantes. Quem passa várias horas em chamadas, estudando ou ouvindo música pode alternar períodos com e sem fones para diminuir a exposição sonora acumulada. Quais são os sinais de que os fones estão prejudicando a audição? Os danos auditivos nem sempre são percebidos imediatamente. Em alguns casos, os sintomas aparecem depois de uma sessão prolongada ou de uma exposição intensa ao som. Em outros, a perda auditiva se desenvolve gradualmente. Entre os sinais que merecem atenção estão: Gasperin destaca o zumbido, a irritabilidade a sons e o cansaço relacionado ao uso dos fones como sinais sugestivos de uma possível lesão auditiva. Os sintomas não confirmam, isoladamente, uma perda auditiva causada pelos fones. Ainda assim, são motivos para interromper a exposição sonora e procurar avaliação médica, principalmente se persistirem ou voltarem com frequência. Uma perda auditiva súbita exige atendimento médico urgente. Fones com ANC e Bluetooth oferecem riscos por causa da radiação? A tecnologia de cancelamento ativo de ruído e a conexão Bluetooth são recursos diferentes. O ANC atua sobre a percepção dos sons, enquanto o Bluetooth transmite dados sem fio entre dispositivos. Gasperin observa que alguns estudos levantaram hipóteses sobre possíveis efeitos da radiação emitida por equipamentos Bluetooth. Segundo ele, essa possibilidade ainda não está totalmente comprovada. É importante, porém, distinguir uma hipótese de um risco demonstrado. As evidências científicas disponíveis não estabelecem que a exposição habitual à radiofrequência de fones Bluetooth cause danos auditivos. O maior risco associado ao uso de fones continua sendo a exposição excessiva ao som. Assim, a principal medida preventiva é controlar a intensidade e a duração da reprodução sonora. Não há motivo para atribuir automaticamente ao Bluetooth os danos que podem decorrer de ouvir áudio em volumes elevados. Crianças e adolescentes precisam de cuidados especiais? Crianças e adolescentes merecem atenção especial porque estão entre os grupos que mais recorrem aos fones para ouvir música, assistir a vídeos, jogar e acompanhar aulas. A exposição repetida a volumes elevados pode comprometer a audição ao longo do tempo. Para Gasperin, a idade não é necessariamente o fator que torna esse grupo mais vulnerável, mas a frequência com que os equipamentos são usados. Por isso, a orientação dos pais e familiares é fundamental. O médico destaca a importância da prevenção por meio da educação. Ensinar crianças e adolescentes a controlar o volume, fazer pausas e reconhecer sinais de desconforto ajuda a desenvolver hábitos mais seguros. Os responsáveis também podem acompanhar as configurações de áudio dos dispositivos, ativar limites de volume quando disponíveis e observar se os jovens costumam aumentar o som para abafar o ambiente. Fones com ANC podem ser úteis para reduzir a necessidade de volume alto, mas não devem servir de justificativa para sessões prolongadas ou reprodução sonora intensa. O acompanhamento dos hábitos de uso continua sendo essencial. Então o cancelamento ativo de ruído não é, por si só, o principal fator de risco para a audição. Ao reduzir os sons externos, a tecnologia pode até ajudar a manter o volume mais baixo, especialmente em ambientes movimentados. Quer saber se usar fone intra-auricular faz mal ao ouvido? Veja o que dizem otorrinos .






